"John Travolta pilotou o próprio 707 da Flórida para a ilha caribenha com seis toneladas de rações alimentares de militares e equipamentos médicos" (Abril Online, 26/01/2010).
"Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; - a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará" (Mt, 6, vv. de 1 a 4).
Por dois séculos o mundo c*gou e andou pro paiseco do Caribe. Primeira nação independente das Américas, não possuía riquezas naturais capazes de interessar os países da parte bem servida do globo. Tudo mudou depois de um terremoto, quando a pequena metade de ilha revelou-se uma imensa jazida de um novo e valiosíssimo recurso: a atenção midiática. Subitamente, hordas de militares, médicos e repórteres acorrem ao local, espalham-se pelas ruas, afastam multidões e, momentos máximos, resgatam gente com vida dos escombros. Claro: em tempos de mensalão no DF, complicações na aprovação do novo sistema de saúde norteamericano ou qualquer outro problema interno que possa aparecer por aí, uma catástrofe dessas vem a calhar.
Penso no Haiti e quando vejo na Globo News um médico espanhol correndo com um cinegrafista pra lá e pra cá, fazendo ataduras em criancinhas e atendendo de maneira heróica velinhos hemorrágicos ou quando vejo o John Travolta num 707 penso que caceta esses caras tão fazendo lá, atrapalhando uma pista de pouso que poderia estar sendo usada por uma missão de paz da ONU que, esta sim, sabe o que é viver naquele país.
Penso no Haiti e tenho a impressão que estão vinculando imagens da tragédia como se fosse um CSI da vida real, um Big Brother em escombros, um GNT de carne e osso, um palanque do Obama, do Sarzoky, do Lula, da Dilma, do Serra, do PAC, do Fidel, do Chaves, do Temer and on and on and on. Sei que vocês vão vir me dizer que a função dos profissionais da mídia é trazer esse tipo de imagem à tona. Dizem que só elas "sensibilizam os líderes globais", mas esse é um dos poucos momentos em que sinto ecoar incontroláveis reverberações de cristianismo em mim.
Penso no Haiti e penso em Zilda mas também nas milhares de pessoas - profissionais, militares, desconhecidos, gente comum - que ajudam o Haiti de maneira muito menos espetacular do que o pilotando um avião, seguindo vôo enquanto não surgir uma nova queda de Down Jones, uma nova desvalorização do Yuan, uma nova catástrofe ambiental ou um novo eliminado no paredão do BBB.
Penso no Haiti e penso que da altura da cabine de um Boeing, todas as ilhas devem ser meio iguais; Haiti. Tuvalu. Cuba e sua base de Guantanamo. Ilha Grande ou Queimada. Dá no mesmo.
Queimada, Gillo Pontecorvo, 1969.