terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Eu o minotauro - Parte 2

Vivo colocando coisas minhas dentro de livros, me perguntando se um dia eu ainda as irei encontrar. Postais, grifos, conversas, impressões, fragmentos. Hoje, por exemplo, encontrei as seguintes palavras:

Ir ao desterro
ou falar dos países
que desconhecem as
artes do fogo.

Eu o minotauro

Triunfante, convalecido, acompanhado de mulheres ou de guerreiros, em orgias com poetas e filósofos, por vezes envelhecido, por vezes ferido, cego e cansado, por vezes conduzido pela mão por uma moça de pés descalços que traz junto a si uma pomba. Nesta noite de estrelas pequenas, contudo, há tristeza no labirinto silente.

Sinto que espero.

Espero pelo justo momento da aurora, pois com ela ressurgem a cor e as veredas de vida. Veredas de amor, pois sou gente ou veredas de morte - pois são delas que depende a tourada. Talvez mesmo as veredas de todos os meus muitos sentidos unidos - dolorosos, pulsantes ou fulminantes.

Minotaure aveugle guide par une petite fille au pigeon, 1934.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Depois de quatro invernos

Aqui decidi esperá-la

e enquanto não vinha
eu brinquei de pensá-la
nas matas,
nas copas, nos versos
palavras e silvos
distantes

e também
nas longuíssimas
crinas do tempo -
o seu corpo enrolado
e sem peso
nos miúdos
miolos de inverno.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Filme #45

Numa casa na praia com 8 suítes e espaço para vinte e cinco pessoas, com piscina no jardim, 400 metros do mar, num feriado prologando ou numa quinta-feira convencional, com bebidas de outros países, músicas de Nat King Cole, cigarros finíssimos e pasta integral com manjericão a qualquer hora da madrugada. Fruto da imaginação? Coisa de cinema? Pode até ser, mas ainda acredito que a vida tenha seus momentos de verdadeira elegância... E muito Garbo.

Grande Hotel, Edmund Goulding, 1932.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Filme #46

Estranhou-se um amigo meu uns tempos atrás quando lhe disse que estava indo ver uma ópera contemporânea. Disse-me ele que ópera era coisa de museu e que não fazia mais o menor sentido um negócio desses hoje em dia. O problema é que em última análise vamos conseguindo estender isso para um rol enorme de bens culturais. Em tempos de twitter quem tem paciência para um romance de Tólstoi, um poema de Keats, uma peça do Moliére ou um concerto de Beethoven?

Nossa mente anda tão siderada que outro dia eu desisti de ver um filme porque ele durava um pouquinho mais que duas horas e eu ainda tinha uma cacetada de coisas pra fazer no final de semana. Os filmes, como o restante da vida, andam aceleradíssimos, com uma carga de informação altíssima num espaço curto de tempo. Não estou falando só de tempo de execução, mas também de tradução (não tinha isso de estréia mundial), de distribuição (os filmes demoravam meses pra chegar no interior) e também de produção (os cronogramas eram muito mais amplos que hoje).

Se cabe colocar assim um contra-exemplo disso, penso nos filmes do David Lean que estão, de uma ponta a outra, em outra sintonia. Doutor Jivago, a gigantesca saga soviética, é um filme do tamanho da Rússia: 197 minutos, uma cacetada de extras, música linda, cenas de guerra, perseguições, romances e o escambau.

Lawrence da Arábia então nem se fala: tem que tirar um dia inteiro pra assistir os 227 minutos de andanças de Peter O'Toole. Podia ficar falando dos camelos, do deserto, do Anthony Quinn vestido de beduíno, mas prefiro falar do intervalo que o David Lean resolveu colocar no meio do filme. Quando vi pela primeira vez o filme, fiquei me perguntando porque é que aquilo lá existiria. Será que era pro pessoal sair da sala e esticar as pernas? Seria pro projecionista ir fumar um cigarro ou ainda pras meninas darem um pulo no banheiro?

Acho que não. No fundo mesmo, acho que era simplesmente pro Omar Shariff tirar aquele turbante preto da cabeça e dar água pros seus camelos que, obviamente, também estavam exaustos de todas aquelas andanças.



Lawrence da Arábia, David Lean, 1962.


domingo, 31 de janeiro de 2010

Toda a diferença

Reconheceu-a no bar escuro e lembrou-se que naqueles tempos seu namorado estava lhe ensinando a andar de moto.

- Desisti. Não estamos mais juntos.

Mas e se estivessem? - juntos, casados, com um filinho de um ano e meio. Talvez aí tudo fosse diferente. Ou não.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vas y Venis - Parte 2

Se meu coração fosse um país acho que seria o Uruguai, pois:
- os dois são pequenos e olhando de longe parecem um punho fechado
- os dois têm imensos jardins de ibiscos
- os dois estão cercados de gigantes temerosos (Brasil, Argentina, angústias etc.)
- os dois têm (ou querem ter) um quêzinho de Europa mas amam amores inegavelmente latino-americanos.
- os dois são meio nostálgicos de tempos passados (ainda que sejam saudades da noite de anteontem)
- os dois estão repletos de poesias de Benedetti e de músicas de Drexler.



Corazon coraza.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pense no Haiti (Filme #47)

"John Travolta pilotou o próprio 707 da Flórida para a ilha caribenha com seis toneladas de rações alimentares de militares e equipamentos médicos" (Abril Online, 26/01/2010).

"Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; - a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará" (Mt, 6, vv. de 1 a 4).

Por dois séculos o mundo c*gou e andou pro paiseco do Caribe. Primeira nação independente das Américas, não possuía riquezas naturais capazes de interessar os países da parte bem servida do globo. Tudo mudou depois de um terremoto, quando a pequena metade de ilha revelou-se uma imensa jazida de um novo e valiosíssimo recurso: a atenção midiática. Subitamente, hordas de militares, médicos e repórteres acorrem ao local, espalham-se pelas ruas, afastam multidões e, momentos máximos, resgatam gente com vida dos escombros. Claro: em tempos de mensalão no DF, complicações na aprovação do novo sistema de saúde norteamericano ou qualquer outro problema interno que possa aparecer por aí, uma catástrofe dessas vem a calhar.


Penso no Haiti e quando vejo na Globo News um médico espanhol correndo com um cinegrafista pra lá e pra cá, fazendo ataduras em criancinhas e atendendo de maneira heróica velinhos hemorrágicos ou quando vejo o John Travolta num 707 penso que caceta esses caras tão fazendo lá, atrapalhando uma pista de pouso que poderia estar sendo usada por uma missão de paz da ONU que, esta sim, sabe o que é viver naquele país.


Penso no Haiti e tenho a impressão que estão vinculando imagens da tragédia como se fosse um CSI da vida real, um Big Brother em escombros, um GNT de carne e osso, um palanque do Obama, do Sarzoky, do Lula, da Dilma, do Serra, do PAC, do Fidel, do Chaves, do Temer and on and on and on. Sei que vocês vão vir me dizer que a função dos profissionais da mídia é trazer esse tipo de imagem à tona. Dizem que só elas "sensibilizam os líderes globais", mas esse é um dos poucos momentos em que sinto ecoar incontroláveis reverberações de cristianismo em mim.


Penso no Haiti e penso em Zilda mas também nas milhares de pessoas - profissionais, militares, desconhecidos, gente comum - que ajudam o Haiti de maneira muito menos espetacular do que o pilotando um avião, seguindo vôo enquanto não surgir uma nova queda de Down Jones, uma nova desvalorização do Yuan, uma nova catástrofe ambiental ou um novo eliminado no paredão do BBB.

Penso no Haiti e penso que da altura da cabine de um Boeing, todas as ilhas devem ser meio iguais; Haiti. Tuvalu. Cuba e sua base de Guantanamo. Ilha Grande ou Queimada. Dá no mesmo.

Queimada, Gillo Pontecorvo, 1969.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Filme #48

Anteontem, estávamos num papo astrológico. Valendo-se de seu signo, seu ascendente e sua lua, cada qual saiu destacando os vícios e virtudes dos demais. Os arianos, por exemplo, lidamos muito mal com o desprezo. Isso tudo e mais esse clima de praia, sol, calor e pouca roupa do Rio de Janeiro me fez lembrar do Desprezo, esse mesmo, o filme com um inacreditável Fritz Lang e a mais que antológica bundinha da Brigitte Bardot numa laje mediterrânea.

Os astros tem lá suas razões.

O Desprezo, Jean-Luc Godard, 1963.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filme #49

Essa semana o Lula disse que é pro pessoal esquecer aquela história de Lulinha paz-e-amor: 2010 ele está entrando mesmo com o porrete na mão. Motivado por essa robusta frase de nosso presidente, proponho, numa espécie assim de choque de gestão empreender uma guinada nessa minha listinha de filmes. Depois de um início de ano tímido, falando de músicais franceses e ainda enebriado pelos ecos de uma chanchada (!) dos anos 1950, acho que está na hora de mandar um filme barra-pesada e minha escolha é Laranja Mecânica.


Concordo que em nosso dias o filme já perdeu sua camada efetivamente "chocante": parodiado, vejo pelas ruas de São Paulo emos pagando de droogs, sem falar nas japinhas que usam aquela camiseta em que aparece um Alex DeLarge em versão mangá. Acredito, além disso, que o tal tratamento Ludovico proposto no filme não foi de todo eficiente com a nossa sociedade: estamos submetidos diariamente a um nível altíssimo de cenas de violência (ver gente chorando por causa de alguma tragédia no JN, por exemplo, já é algo mais que esperado pela audiência), de abusos e de verdadeiros estupros morais mas que, paradoxalmente, não paralizam a nossa vivência e tampouco controlam os nossos impulsos destrutivos.


Kubrick, e Laranja Mecânica em especial, é daquele tipo de artista que está aí para chocar. E, se por acaso, você assisti-lo e não sair do cinema com um náusea daquelas, tome cuidado: sugiro desligar um pouquinho o programa do Datena e ir curtir um pouco do resto de sua humanidade em paz e sossego.



Laranja Mecânica, Stankley Kubrick, 1971.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lisistrada ou Medéia?

"Então, alguns meses depois, reli a carta de X. Foram meses nos quais eu mudei. Durante os quais compreendi muitas coisas. E tudo o que eu havia escrito soou absurdo. Burro, cego e até perigoso, estava totalmente desprovida de lucidez. Eu sequer tinha lido corretamente a palavra "angústia" na carta de X., e na frase "gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente", ele estava tentando recuperar sua virilidade, e eu não tinha percebido isso na minha primeira leitura. Se Sophie o tivesse amado tanto quanto diz, ela não teria convocado um esquadrão de mulheres para ajudá-la a superar. Ela teria tentado superar isso, é o que se deve fazer, mas não assim, cercada de mulheres.

"Um grande esquadrão de mulheres, é isso que somos, com nossos textos patéticos ou nossas interpretações, nossas performances, sentindo pena de nós mesmas ante o homem; o melhor é ir atrás dele e fazê-lo sentir-se insignificante. Eu deveria ter dito isso a Sophie, e estou dizendo agora: cuidado com todas as mulheres reunidas. Evite-as. A maioria quer transformar os homens em mulheres, elas dedicam suas vidas a isso, o fato de serem mulheres as enlouquece, elas não podem aceitar. Elas não vão ajudá-la a se tornar uma mulher, uma mulher de verdade, ou seja, alguém que não tem nada, não tem mais palavras, não tem mais nada, nada de poder, poder sobre coisa alguma, uma mulher de verdade: boa e impotente. Elas não vão ajudar você, isso as deixa com raiva, o vazio, a falta. Elas não vão ajudá-la e continuarão dizendo "proteja-se", quando não há nada do que se proteger.

"Você não tem nada. Você tem um vazio, você tem uma ausência, é só isso. Você é uma artista e isso não lhe dá poder, mas graça, sim, toda vez que vejo seu trabalho, eu fico, não sei como dizer isso... Fico emocionada e cheia de admiração. Mas mulheres reunidas, tudo o que elas querem é que os homens desapareçam, que virem fantasmas distantes. Ou que sejam escravizados, estejam à disposição, sejam sempre acessíveis e vivam de acordo com os seus discursos, que eles supostamente entendem perfeitamente. Elas não querem "largar mão", elas pensam que eles são como crianças, elas adoram falar sobre a "fragilidade do homem" - tão tocante, elas dizem - ou sobre eles "fugindo".

O coro que você reuniu em torno dessa carta é o coro da morte (Christe Angot, texto número 24 da exposição Sophie Calle: cuide de você, atualmente em exposição no MAM-Rio).