Para aqueles momentos em que a vida faz todo o sentido.
Todos os fogos, o fogo.
Em seus filmes, Pasolini busca o real, mas esse real não é uma simples homologia do natural, um registro neutro, é um real dotado de sentido. É somente assim que podemos entender a maneira pela qual o diretor trata com a maior naturalidade temas utópicos. Sua Trilogia da Vida fala de tempos distantes e felizes e, embora saibamos que ele nos narre um mundo fictício, não deixamos de crê-lo existente. Talvez essa seja a grande função dos artistas: nos remeter a um outro universo, inexistente, posto que simbólico, mas possível, já que baseado no real. Não é de se estranhar, nesse sentido, que Pasolini marque sua presença física em pelo menos dois filmes - o Decamerão e os Contos de Canterbury - atuando justamente no papel de um artista.
Outra idéia que é preciso combater: a de que seus filmes são "explícitos". Diferentemente do que querem crer muitos de seus críticos, o sexo para o diretor italiano é muito mais do que o mero registro da relação carnal, ele é - sobretudo em seu filme seminal Teorema - algo repleto de sentidos e valores transformadores, uma coisa assim, símile a um milagre, uma redenção ou um imenso perdão. Disse Fernão Ramos sobre o italiano que o "o sentimento trágico da finitude da vida é uma espécie de consolação". Nessa chave, seu tão aclamado homoerotismo vira quase que um programa político, uma grande mensagem utópica como que dizendo "falos do mundo, uni-vos!".
Pasolini dizia que o cinema era um grande plano-seqüência, do tamanho e da duração da vida, uma imensa projeção sem cortes e que cabia ao cineasta interromper essa duração, transformando em passado uma imagem eterna do presente. O ato dessa interrupção, o filme, é um ato de morte. Essa morte, contudo é absolutamente indispensável, tanto quanto é o assassinato de Laio por seu filho Édipo na antiga tragédia grega. É somente depois desse crime que a vida do rei de Tebas começa a ter um sentido, por mais trágico que ele seja. Talvez tenha sido justamente por essa razão que Pasolini tenha concebido um filme sobre o mito grego, filme, aliás, genial.
Édipo Rei, P.P.Pasolini, 1967.
Esse obscuro objeto do desejo, Luis Buñuel, 1977.
Pickpocket, Robert Bresson, 1959.

São tristes esses trópicos, bem já disse o saudoso Levy-Strauss.